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October 27th, 2008

Certos lugares

A cidade de Óbvio fica exatamente onde você esperava que ela ficasse. Está identificada no mapa pela palavra "Óbvio". Quem for de carro deve seguir as sinalizações na estrada que mostram o caminho para se chegar lá. Pode-se ir de ônibus, tendo o cuidado de não pegar um ônibus que vá para outro lugar. Ou de trem, desde que desça na estação certa. A estação de Óbvio é facilmente identificável. É a única que tem uma tabuleta onde está escrito "Óbvio". Se o nome na estação for outro, não é Óbvio. É óbvio.
Em Óbvio existe uma praça central onde ficam a igreja matriz e a prefeitura. A igreja é usada para missas, enquanto a administração da cidade se concentra, convenientemente, na prefeitura. Apesar de uma certa mesmice, as casas de Óbvio, todas feitas com material de construção, se distinguem por certos detalhes arquitetônicos, como janelas e portas. Existem ruas. A cidade de Óbvio está cheia de lugares comuns.
Em Óbvio conversa-se pouco. Primeiro porque, desde a fundação da cidade, ninguém jamais teve um pensamento original e os assuntos se repetem. Segundo porque as pessoas não precisam dizer nada. Em Óbvio está tudo na cara.
Os principais produtos da região são truísmos e as coisas feitas ali mesmo. Quando a temperatura baixa faz frio, mas os termômetros sobem quando esquenta. E Óbvio tem uma peculiaridade climática: lá chove no molhado.
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Não longe dali fica a cidade de Desgraça. O único hotel de Desgraa se chama Ostracismo e fica numa rua escura de pouco movimento. Quem cai em Desgraça vai automaticamente para o Ostracismo. Na sua lista de hóspedes estão alguns nomes ilustres dos quais raramente se ouve falar.
-Que fim levou o fulano?
-Está no Ostracismo.
É difícil registrar-se no hotel porque muitas vezes o próprio pessoal da recepção recusa-se a falar com o recém-chegado. O máximo da rejeição é alguém ser persona non grata no Ostracismo.
O hotel tem um bar, o Pária's, e um restaurante, o L'Execrable. No bar só servem uísque "black label" - todos os uísques vêm com uma tarja preta. Do Black & White só servem o Black. A massa do pão para o restaurante é amassada no próprio hotel, pelo Diabo. A Suíte Ex-Presidencial, reservada para os presidentes qeu chegam a Desgraça, tem a vantagem de dar para um paredão. Os outros quartos não dão para nada.
O prédio do hotel não tem poço, tem depressão. Os elevadores só descem. Os quartos têm frigobar mas o frigobar não tem porta. O chuveiro, no banheiro, tem duas torneiras: "Frio" e "Mais Frio". Quando você chama o serviço de quarto vem um ladrão e faz o serviço no seu quarto. O cartão para pendurar do lado de fora da porta diz "Perturbem perturbe:. A roupa de cama , mudada a cada década pelos Três Patetas, é uma velha calça de brim rasgada e uma camiseta desdobrada com os dizeres "Torcida Organizada do Jabaquara".
Nunca há visitantes para quem está no Ostracismo. Ninguém lhe telefona. Não chegam cartas, só velhas contas a ajustar.
É o único hotel do mundo onde as baratas têm nojo dos hóspedes.

De novo, Luis Fernando Veríssimo. Crônica publicada na Zero de 21 de maio de 1995, na antiga Revista ZH. Melhor crônica de todos os tempos. Até hoje eu guardo o recorte de jornal